Meus Poemas

DO APRENDIZADO DO AR

imaginemos o ar solto na atmosfera
o ar inexistente à luz dos olhos
imaginemos o ar sem senti-lo
sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre
o ar sem cortes e fronteiras
o ar sem o céu
o ar de esquecimentos
imaginemos fotografá-lo
fantasma sem textura
moldura inerte
quadro de sugestões e aparências
imaginemos o ar
paisagem branca sem o poema
vácuo impregnado de Deus
o ar que só os cegos vêem
o ar silêncio de Bach

imaginemos o amor
assim como o ar


DEL APRENDIZAJE DEL AIRE

imaginemos el aire suelto en la atmósfera
el aire inexistente a la luz de los ojos
imaginemos el aire sin sentirlo
sin el sofocante olor de las abejas
el aire sin cortes sin fronteras
el aire sin el cielo
el aire del olvido
imaginémoslo fotografiado
fantasma sin textura
moldura inerte
cuadro de sugestiones y apariencias
imaginemos el aire
paisaje blanco sin el poema
vacuo impregnado de Dios
el aire que sólo los ciegos ven
el aire el silencio de Bach

imaginemos el amor
así

Trad: Leo Lobos



SUBSTANTIVOS

faca é faca
pão é pão
fome é fome
amor é amor

estranho desígnio das coisas
de serem exatamente elas
quando as olhamos sem paixão


SUSTANTIVOS

cuchillo es el cuchillo
pan es el pan
hambre es el hambre
amor es el amor

extraño designio de las cosas
de ser exactamente ellas
cuando las miramos sin deseo

Trad: Leo Lobos


TEIAS

Alimentar aranhas,
eis o meu ofício.
Deixá-las criar tentáculos.
Moscas mansas
apaixonadamente sangrar.
Cuidá-las para tecer
os pequenos vícios
do seu tear:
venenos sutis
tatos improváveis
-vivê-las.
Redescobrir as cores
as sedes e as sedas.
Entrelaçar as sendas
do meu destino nelas:
véus de astúcia
morte e viuvez.
Decifrar sua dança:
rede de valsas
fios de arame.
Aprender com elas
o ritmo do salto.


TELAS

Alimentar arañas,
es mi oficio.
Dejarles crecer tentáculos.
Cuidar
los pequeños vicios
de su telar:
experimentar
los tactos improbables
(sutiles venenos).
Redescubrir colores
en la casa de las sedas.
Tejer
mi destino a ellas:
velos de mortal astucia
viudez.
Descifrar su danza:
valses tejidos
con hilos de alambre.
Aprender con ellas
el ritmo del salto.

Ver como las mansas moscas
sangran apasionadamente.

Trad: Angélica Santa Olaya


DA POESIA

o canto do pássaro
à procura do vento
não

a promessa de amor
nas faces da lua
não

o medo do mundo
em cima do muro
não

o malabarista
na corda-bamba
não

o olho do tigre
exato certeiro
preciso

o olho do tigre
sim


DE LA POESÍA

el canto de los pájaros
a la procura del viento
no

la promesa del amor
en las caras de la luna
no

el miedo del mundo
sobre el muro
no

el malabarista
en la cuerda floja
no

el ojo del tigre
exacto certero
preciso

el ojo del tigre


Trad: Leo Lobos


SOBRE O OFÍCIO

escrever

deixar-se ir
a um pântano que não
se conhece
o fundo nem o gosto

di/lu/ir/se

a pele secar ao sol
unhas e dentes

a/bis/mar/se

espanto e
perigo de queda

entregar-se ao
terremoto que vem
do tremor de si mesmo

de/sis/tir/se

não resistir
ao abandono
dos cabelos

dis/sol/VER-SE


SOBRE EL OFICIO

escribir

dejarse ir
a un pantano que no
se conoce
fondo ni gusto

di/lu/ir/se

la piel secar al sol
uñas y dientes

a/bis/mar/se

espanto y
peligro de caída

entregarse al
terremoto que viene
de sí mismo

de/sis/tir/se

no resistir
el abandono
de los cabellos

di/sol/VER-SE

Trad: Leo Lobos


CONVITE

eles chegam

rios caminhos estradas
sóis luas cavalgadas
jornais diários
rezas velas fotos
cartas de amor
saudades
jardins repletos
primaveras
frutas cães geadas

eles chegam

meus mortos
nunca
se apartam


INVITACIÓN

ellos llegan

ríos caminos carreteras
soles lunas cabalgatas
jornadas diarias
rezos velas fotos
cartas de amor
nostalgias
jardines repletos
primaveras
frutas perros

ellos llegan

mis muertos
nunca
se apartan

Trad: Leo Lobos


ÓVULO II

a cada poema
que se faz
adia-se a morte
até a manhã
de um novo
poema


ÓVULO II

con cada poema
que se hace
se aleja a la muerte
hasta la mañana
de un nuevo
poema

Trad: Leo Lobos

SOBRE O NOME DAS COISAS
para Luiz Ruffato

I

porque todos os mistérios são santos,
não nomearemos o nome das
coisas.
ainda que os desertos floresçam
e o caos das chuvas transborde,
deles, o sangue
não diremos.

IV

quando caminhávamos
na areia,
os nomes não havia.
havia o mar sem nome.
o céu, as frutas,
as pegadas dos pássaros
e o sonho havia sem nome.
tudo era simples.
simples os homens
sem nomes.

VI

quem nos carrega nos ombros?
quem nossa língua nos bebe?
a quem dizer, quero?
a quem dizer, preciso?
a quem dizer, inocentes?

VIII

vivemos dentro de nós.
estrangeiros.
percorremos estradas,
ruas, cidades. nus e
estrangeiros.
cada sorriso, cada
abraço, estrangeiros.
nossos mares e navios,
estrangeiros.

XI

eis que
os nomes não ditos se esquivam
e o Verbo
que era barro
se faz
vento.


SOBRE EL NOMBRE DE LAS COSAS

para Luiz Ruffato

I

por que todos los misterios son santos,
no nombraremos el nombre de las
cosas.
aún que los desiertos florezcan
y el caos de las lluvias nos transborden,
de ellos, la sangre
no diremos.

IV

cuando caminábamos
en la arena,
nombres no había.
había el mar sin nombre,
el cielo, las frutas,
las huellas de los pájaros
y el sueño sin nombre había.
todo era simple.
simples seres humanos
sin nombrar.

VI

¿quién nos lleva en los hombros?
¿quién nos bebe la lengua?
¿a quién decir, quiero?
¿a quién decir, preciso?
¿a quién decir, inocentes?

VIII

vivimos dentro de nosotros.
extranjeros.
recorremos carreteras,
calles, ciudades. desnudos y
extranjeros.
cada sonrisa, cada
abrazo, extranjeros.
nuestros mares y navíos,
extranjeros.

XI

es que
los nombres no dichos se esquivan
y el Verbo
que era barro
se hace
aire.

Trad: Leo Lobos


FIAT LUX
para Cristina da Costa Pereira

o tempo
vem dos pés e das mãos e da água e dos ventos
e da terra
e do fruto do ventre das mães
vem das árvores primevas
da paz que faísca em sua casca
nasce da pureza do sangue das areias
da existência da folha em branco
das ancestrais lembranças do caráter mágico
das palavras

o tempo
nasce das escrituras dos pássaros
ou do seu canto
ou do riso do primeiro galo na primeira manhã
ou antes
quando a idéia de um Deus queimava os olhos
e as crianças brincavam
no sopro da espuma dos versos dos poetas

vem da seda das abelhas
da pele das tartarugas
do encontro da aranha e sua rede
do ínfimo grão dos desertos

o tempo
começa em ti
no teu gemido diante do umbigo da lua
e das espirais das nuvens
nasce das cidades invisíveis
do movimento que existe no jugo do criador
e da pedra fundamental
nasce do amor das lagartas
das uvas moídas no vinho
do fogo dos vulcões
dos céus e dos parques
do espírito que perfuma o ar
nasce do mistério gozoso
que existe entre o espinho e a rosa
dos relâmpagos que iluminam os cabelos
da primeira formiga no seu labor diário
das asas dos peixes quando esses voaram

o tempo
nasce do acaso das galáxias e das estrelas
do húmus das chuvas
nasce da memória da poeira
dos incêndios do desejo
vem ungido pelas dores dos profetas
nasce do vôo de Deus e seu suor
e do dedo do sol entre as sombras

o tempo
resiste no sorriso lento da noite
ofertando-se à boca estelar e melancólica
da aurora mais longínqua
e harmoniza o silêncio
apascenta o vinagre
colhe os estrumes e o mel
e nos faz estremecer

sós e humanos


FIAT LUX
para Cristina da Costa Pereira

el tiempo
viene de los pies y de las manos y del agua y de los vientos
y de la tierra
y del fruto del vientre de las madres
viene de los árboles
de la paz que brilla en su cáscara
nace de la pureza de la sangre de las arenas
de la existencia de la hoja en blanco
de los ancestrales recuerdos del carácter mágico
de las palabras

el tiempo
nace de la escritura de los pájaros
o de su canto
o de la risa del primer gallo en la primera mañana
o antes
cuando la idea de un Dios quemaba los ojos
y los niños jugaban
en el soplo de la espuma del verso de los poetas

viene de la seda de las abejas
de la piel de las tortugas
del encuentro de la araña y su red
del ínfimo grano de arena de los desiertos

el tiempo
comienza en ti
en tu gemido delante del ombligo de la luna
y de las espirales de las nubes
nace de las ciudades invisibles
del movimiento que existe en el juego del creador
y de la piedra fundamental
nace del amor de los lagartos
de las uvas molidas para el vino
del fuego de los volcanes
de los cielos y de los parques
del espíritu que perfuma el aire
nace del misterio gozoso
que existe entre la espina y la rosa
de los relámpagos que iluminan los cabellos
de la primera hormiga en su labor diaria
de las alas de los peces cuando estos vuelan

el tiempo
nace del acaso de las galaxias y de las estrellas
del humus de las lluvias
nace de la memoria del polvo
de los incendios del deseo
viene ungido por el dolor de los profetas
nace del vuelo de Dios y su sudor
y del dedo del sol entre las sombras

el tiempo
resiste en la sonrisa lenta de la noche
ofreciéndose a la boca estelar y melancólica
de la aurora más larga
y armoniza el silencio
el vinagre y la miel
y nos hace estremecer

solos y humanos

Trad: Leo Lobos


EXERCÍCIO DO OLHAR

o olho cortado do cão andaluz
o olho da lâmina afiada
o olho do sangue e seu jorro
o olho e a visão de Borges
o olho cego que vê
o olho dos bruxos
o olho oculto do eclipse
o olho da parábola e da profecia

o olho que circunda o olho claro do medo
o olho de Deus no centro do furacão
o olho do pai e da mãe e dos galos na aurora
o olho que habita o planeta da infância

o olho da morte anunciada
o olho da vida adiada
o olho na idade madura dos ossos

o olho da cidade fragmentada
dentro do homem fragmentado
o olho ruidoso da urbanidade
o olho do sonho que se recorda
o olho da memória em movimento
o olho partido da esperança e da utopia
o olho dos girassóis

o olho de Clarice
o olho triste da alegria
o olho dos 3 mistérios
o olho prismático dos cristais
o olho como ato de estilhaçamento
o olho das sombras e das dúvidas
o olho absurdo das águias
o olho atento das horas paradas

o olho na nudez escondida
das senhoritas de Picasso
o olho azul de Matisse
o olho das banhistas de Cézanne
o olho sonso do sorriso santo de Gioconda

o olho que se ilumina
além da superfície da máquina
o olho do ritmo das engrenagens
o olho que se espreita
além da língua e da linguagem
o olho que a palavra liberta

o olho do verbo ser
o olho duplo da androginia
o olho do que sou e não sou
ou vice-versa
o olho que parte de mim para o outro
ou vice-versa
o olho fatal do nome e da coisa
o olho da máscara dentro do olho

o olho da carne dentro da pele
o olho entre os lençóis
o olho insuportável dos limites
o olho sem algemas

o olho do verso em transe e em trânsito
o olho na contramão da dicção
o olho dentro da hipérbole e do espanto
o olho paradoxal da contradição

o olho da serpente sugando o mar
o olho na mão de Gullar
o olho das 5 raízes
Cecília Bandeira Murilo Cabral Drummond

o olho do som de Cage
o olho do rio bebendo a sede
o olho aguado dos peixes
o olho da flecha
o olho da canção dos gatos

o olho no olho do poema
que se anuncia

o olhar nosso de cada dia


EJERCICIO DE LA MIRADA

el ojo cortado del perro andaluz
el ojo de la lamina afilada
el ojo de la sangre y su chorro
el ojo y la visión de Borges
el ojo ciego que ve
el ojo de los brujos
el ojo oculto del eclipse
el ojo de la parábola y de la profecía

el ojo que circunda el ojo claro del miedo
el ojo de Dios en el centro del huracán
el ojo del padre y de la madre y de los gallos de la aurora
el ojo que habita el planeta de la infancia

el ojo de la muerte anunciada
el ojo de la vida
el ojo en la edad madura de los huesos

el ojo de la ciudad fragmentada
dentro del hombre fragmentado
el ojo ruidoso de la urbanidad
el ojo del sueño que se recuerda
el ojo de la memoria en movimiento
el ojo partido de la esperanza y de la utopía
el ojo de los girasoles

el ojo de Clarice
el ojo triste de la alegría
el ojo de los 3 misterios
el ojo prismático de los cristales

el ojo como acto de destrucción
el ojo de las sombras y de las dudas
el ojo absurdo de las aguas
el ojo atento de las horas paradas

el ojo en la desnudez escondida
de las señoritas de Picasso
el ojo azul de Matisse
el ojo de las bañistas de Cézanne
el ojo de la sonrisa santa de la Gioconda

el ojo que ilumina
más allá de la superficie de la máquina
el ojo del ritmo de los engranajes
el ojo
más allá de la lengua y del lenguaje
el ojo que la palabra libera

el ojo del verbo ser
el ojo doble del andrógino
el ojo del que soy y no soy
o viceversa
el ojo que parte de mi para el otro
o viceversa
el ojo fatal del nombre y de la cosa
el ojo de la máscara dentro del ojo

el ojo de la carne dentro de la piel
el ojo entre las sabanas
el ojo insoportable de los límites
el ojo sin esposas

el ojo del verso en transe y en tránsito
el ojo en la contramano de la dicción
el ojo dentro de la hipérbole y del espanto
el ojo paradojal de la contradicción

el ojo de la serpiente tragando el mar
el ojo en la mano de Gullar
el ojo de las 5 raíces
Cecilia Bandeira Murilo Cabral Drummond

el ojo del sonido de Cage
el ojo del río bebiendo la sed
el ojo aguado de los peces
el ojo de la flecha
el ojo de la canción de los gatos

el ojo en el ojo del poema
que anuncia

la mirada nuestra de cada día

Trad: Leo Lobos













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