ENTREVISTA PARA O FÓRUM DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Em janeiro deste ano, concedi entrevista ao escritor e Mestre em Poética da UFRJ, RONALDO FERRITO para o FÓRUM DE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA. Como a entrevista é muito longa, convido os leitores para acompanharem-na, na íntegra, no link http://www.forumlitbras.letras.ufrj.br/entrevistas.html?total=80083&carregando=36866&porcentagem=46

Lá, poderão ler, igualmente, entrevistas de grandes escritores, como ANTONIO CARLOS SECCHIN, ARMANDO FREITAS FILHO, CLÁUDIA ROQUETTE-PINTO, EUCANAÃ FERRAZ, FERREIRA GULLAR, GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO, ROSA AMANDA STRAUSZ, RUBENS FIGUEIREDO, SÉRGIO SANT'ANNA, ADRIANO ESPÍNOLA, HEITOR FERRAZ MELLO, CECÍLIA COSTA, EDUARDO TORNAGHI, FERRÉZ, FRED GÓES, JULIO MONTEIRO MARTINS, TAVINHO PAES, entre outros.


POEMAS DE TANUSSI CARDOSO PUBLICADOS EM CÍRCULO DE POESÍA, REVISTA ELECTRÓNICA DE LITERATURA - CHILE




O poeta, ensaísta e tradutor chileno
Leo Lobos (1966) nos oferece, nesta oportunidade, suas versões do trabalho do poeta brasileiro Tanussi Cardoso (1946). Cardoso é poeta, contista, crítico literário e letrista. É Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro (SEERJ).

MYRIAN MOREIRA - AMIGA ETERNA

Amigos:

Venho, pezarosíssíma comunicar-lhes o falecimento de minha querida amiga, a musicista e poetisa Myrian Moreira, alma e coração do grupo de musikantiga “Anima et Cor”, que tantos momentos maravilhosos nos proporcionou. É uma irreparável perda para todos os que tiveram o privilégio de ouvi-la com seu alaúde mágico, sua energia inesgotável e maravilhoso talento musical e poético.

Tendo falecido sábado, dia 15.1 às 11.11 da manhã, após complicações renais e uma pneumonia repentina, foi sepultada domingo (16.1) às 11hs no Jardim da Paz em Ponta da Fruta.

Profundamente triste -

MARILENA SONEGHET



... e o canto se fez eterno!
(homenagem póstuma à artista Myrian Moreira)



Por MARILENA SONEGHET



Ela tinha a música na alma e nos lábios uma perene canção. Seus olhos grandes, de profunda mirada, refletiam a indefinida cor dos sonhos. Os dedos inquietos desenhavam arpejos – alaúde, bandolim, violão, viola de cocho, teclado... todo instrumento em suas mãos tornava-se encantado.



Mais que uma motivação, a música era sua vida. Pequenina ainda, lá no Maranhão, onde nascera, era sua companheira uma flautinha. Pousada como um passarinho na platibanda da casa ficava horas tocando. Travessa, pulava a janela para surrupiar o violão do primo e, sentada sob uma árvore, improvisava sons.

Ah, Myrian!... Myrian Moreira! Quem teve o privilégio de a conhecer, de a ouvir tocar, cantar, dizer poemas – a voz a um tempo grave e tépida -, foi tocado para sempre por sua magia. Como almas afins nos identificamos de pronto (até na mania de usar boné) - a poesia, a música, a beleza do mar, da esteira do luar sobre as águas, as andorinhas que fazem verão, a tepidez do sol, os barcos dos pescadores colorindo a praia eram pano de fundo de nossos versos, conversas, e de suas composições.



Eu, de voz limitada e que apenas arranho um violão, tive a honra de tornar-me sua parceira musical no grupo que criamos – o “Anima et Cor” (alma e coração) -, ela, eu e Anita Galveas, uma delicada voz de soprano. Quanto nos ensinou sua espiritualidade pura e vasta cultura!

Em viagem pelo túnel do tempo, por sua mão visitamos a Idade Média, a Renascença, apreciamos a música de Galileu (pai), de Bernard de Ventadour, da condessa de Die com seu plangente “Plang” (o de um amor frustrado), e tantos outros, que passaram a compor nosso repertório. Era como se fossemos anacrônicos jograis e menestréis. Da península Ibérica navegamos ao Brasil recém descoberto, a resgatar a pureza dos sons, da música da “consciência mágica”, como dizia: os cantos e danças dos nossos nativos e os da cultura africana com seus ritmos atemporais e, sobretudo, a busca de nossas raízes, no nordeste, na literatura de cordel, nos cantadores com suas rabecas, flautas, pandeiros – herança direta dos povos ibéricos.

O ritmo pulsava em Myrian. Fazia-se criança com um bongô nas mãos. Ah, Myrian!... Parece-me vê-la vibrante, iluminada de leveza e graça. Mas, a par da saudade que me assalta, sinto imensa alegria e gratidão pelo acaso, destino, complô cósmico - o bom Deus -, que uniu nossos passos num lindo trecho do caminho.

Vai, minha querida amiga, traça sua jornada de Luz e, como você mesma diz em um poema: “sorri, celebra, dança e canta. / O vento colherá teu verso / e o universo inteiro te ouvirá.”

“Sou mais um tupi tangendo um alaúde”

Violão, alaúde, saltério, flautas, bandolim... Sua casa parecia abrigar uma orquetra. A dama dos dez instrumentos. Apaixonada pelo alaúde, ousada, aprendeu a tocá-lo, sozinha, e em vinte dias se apresentou com o “Conjunto Roberto de Regina” no Rio de Janeiro, grupo que, como alaudista, integrou por mais de dez anos, com gravações na CBS, turnês no Brasil, na América do Sul e nos Estados Unidos em missão cultural pelo Itamarati.

Versátil e idealista criou e dirigiu o “Grupo Caleidoscópio” de artes integradas que atuou catorze anos profissionalmente no Rio de Janeiro e em outros Estados. Motivada pela Eco 92, surge com outra grande realização – o espetáculo Gaia, quando ainda nem se conhecia bem esta expressão referente ao “nosso sistema vivo - o fantástico planeta Terra”. Em atuações individuais, gravou canções de sua autoria pela Petrobrás e Tape Car.

Além de sua paixão pela música, Myrian tinha a poesia na alma . Participava dos saraus e das coletâneas do “Poesia Simplesmente”, ainda no Rio, onde viveu por várias décadas e se tornou autêntica carioca. Mas, as férias eram na Praia da Costa. Curtia como ninguém a curva da Sereia, as areias douradas, o farfalhar das castanheiras, até que em 2006 mudou-se definitivamente para cá. Frequentemente era vista com sua bicicletinha e seu bonezinho maroto, a passear no calçadão.

Conhecer a Myrian numa noite de congada na Barra do Jucu, foi, para mim, um desvendar de horizontes. A instantânea simpatia e a poesia nos uniram. Costumava celebrar o luar com cirandas na beira do mar. Havia todo um ritual: o “guarnicê”, espécie de apresentação, o “centro” enfeitado com colorida canga, frutas e coisas gostosas, e em torno a roda a girar, a cirandar, a cantar a cantiga que nascera dos cantos de trabalho, das “casas de farinha” onde, no rodopiar da peneira surgiu a ciranda. Ela, ao violão.

Logo passamos a dizer poesias. Mas, sua “herança bárdica” não se contentava em dizê-las; sempre as acompanhava com música; assim, meio brincando, introduziu-me em seu mundo. Em pouco tempo eu já me aventurava na flauta, no mondol (instrumento marroquino, da família do alaúde), tambor árabe, kântele (variante da harpa), panderetas...

Sem planos prévios, nos vimos engajadas no I Festival de Verão da Barra do Jucu (2007). A dupla tornara-se um grupo ao convidarmos Anita Galveas e sua bela voz. Apresentamos um programa “À Moda dos Bardos”, numa trajetória musical que se iniciava na Idade Média, passando pela Renascença, desdobrando-se às origens do cancioneiro brasileiro (afro-índio-mediterrâneo) – fruto de longos anos de suas pesquisas e estudos.

Como dupla éramos, durante dois anos, assíduas freqüentadoras do sarau poético “Domingo diVerso”, na Casa de Cultura de Vila Velha, na Barra do Jucu. Mas a evolução não se fez esperar; criamos o grupo “Anima et Cor” que, como o nome diz, é pura alma e coração. A despeito de sua técnica e vastos conhecimentos musicais, Myrian amava as canções simples e nos estimulava a espontaneidade. Vinhamos num crescendo lento mas constante, com apresentações nas Academias de Letras, na Ufes, na Aliança Francesa, na Assembléia, na Galeria de Arte Ana Terra - em homenagem à querida amiga Maria Helena Teixeira de Siqueira, pouco antes de seu falecimento, com concorrida afluência de amigos. Entrevistada pela TV Gazeta, no programa Café da Manhã, recebeu inúmeras congratulações.

Mas a Myrian foi chamada para ser a maestrina dos anjos, com suas harpas, liras, saltérios... ou, talvez, para organizar uma imensa ciranda e envolver sua amada “Gaia” de sons. “O simples entoar junto nos permite entrar em ressonância com o outro e descobrir o que os antigos sempre souberam - o mundo é som”. Quem sabe, nos dizia, se cada vez mais pessoas se puserem a brincar com o som, a dançar com a vida, chegaremos à “consciência integral”?! De inclinações místicas, ela acreditava ser possível “através de uma profunda experiência musical da pessoa consigo mesma integrar-se na consciência do todo e encontrar o acesso aos âmbitos da alma e do espírito”.

Ela, com certeza, encontrou.

“O Bardo Interior”

Myrian Moreira


Espera por ti um canto.

Um canto dentro de ti.

Canta, de alma solta e cara limpa

sem medo de secar tua mina.

Vai no que inventar teu coração

até onde te levar a tua fome de criar.

Segue a tua essência na alegria de voar.

Mas antes, ouve, escuta o bardo interior

o canto harmônico, hipertônico, único.

Um canto dentro de ti

a espera de se fazer ouvir.

Escuta o canto peregrino antes que se perca à toa

e passe o ponto onde nasce o arco-íris.

Se ouvires a semente onde silente a luz ressoa...

se escutares o silêncio onde imenso o abismo ecoa...

se voas no som iluminado em aromas de incenso

andas bem perto de “ouvir e entender estrelas”.

E por certo não perderás o senso.

Ouvir é mister... e mistério saber escutar.

Canta. Tomara alguém em teu canto se reconheça

e a dor do mundo por um instante esqueça.

Mas, se ainda te embriaga o pó da estrada,’

se de ti só se ouvir o só que dói até no nada...

o nada escuta. Quando o bardo interior soar

terás encontrado o teu canto.

Vai então, sorri, celebra, dança e canta.

O vento colherá o teu verso

e o universo inteiro te ouvirá.

Os textos acima, escritos pela amiga MARILENA SONEGHET, foram retirados do site da autora. Prestigiem, por favor: http://nenasoneghet.blogspot.com



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