A (PLURAL) POESIA DOS ANOS 70, por HENRIQUE MARQUES-SAMYN

A (plural) poesia dos anos 70
Published: 8 de fevereiro de 2010Posted in: Literatura, Não percaTags: Afonso Henriques Neto, livro, Poesia, Resenha, Roteiro da poesia brasileira
Por Henrique Marques-Samyn
Maior antologia poética já publicada em terras brasileiras, o Roteiro da Poesia Brasileira tem volumes organizados segundo um critério que, se privilegia parâmetros cronológicos sobre literários – visto que, a partir do Modernismo, os livros reúnem poetas que publicaram suas obras de estreia nas décadas a que se referem os volumes -, encontra assim uma louvável solução para não priorizar determinadas tendências poéticas em detrimento de outras, o que é especialmente relevante numa etapa histórica em que a pluralidade de propostas passa a predominar sobre as convergências estilísticas outrora preponderantes.

O volume Anos 70, com seleção e prefácio de Afonso Henriques Neto, é um dos casos em que essa opção revela-se particularmente acertada. O prefaciador acuradamente concede o título “Poesia em tempos de resistência” ao seu texto introdutório; assim, fornece de antemão ao leitor informações sobre o momento histórico e cultural em que se inscreviam aqueles poetas sem, no entanto, sugerir que em decorrência disso toda a poesia composta naquela época tenha sido uma “poesia de resistência” – nem que essa característica mantenha-se constante na obra de autores que porventura a tenham explorado. Observa-o Afonso Henriques Neto quando afirma que “poetas distantes do ‘espírito’ da década estão presentes em razão de terem publicado seu primeiro livro naquela época”, citando como exemplo Dora Ferreira da Silva.
Constando do livro obras de quarenta e seis poetas, torna-se impraticável comentar detalhadamente todos os nomes antologiados. Há a dicção austera de Miguel Jorge; a rigorosa contundência de Anderson Braga Horta; as pungentes imagens poéticas de Cláudio Mello e Souza; os vigorosos e bem urdidos versos de Astrid Cabral; a rara sensibilidade de Maria da Paz Ribeiro Dantas. Ruy Espinheira Filho, poeta de lirismo singular, também está entre os selecionados – como estão Aricy Curvello, autor de uma poesia densa e reflexiva; Terêza Tenório, cujo pleno domínio formal manifesta-se em versos de rica sonoridade; e Lucila Nogueira, cultora de uma poética de excessos e transbordamentos.
Também presentes no livro estão Pedro Paulo de Sena Madureira, autor de notáveis pendor à síntese e rigor léxico; Antonio Carlos Secchin, o camaleônico poeta das releituras; Floriano Martins, poeta de texto erudito que com singular audácia dá largas rédeas à força imaginativa; Rita Moutinho, que se destaca na contemporaneidade como talentosa sonetista; e Denise Emmer, com seu texto tenso e fluido. Autoras festejadas nos círculos literários contemporâneos, como Adélia Prado e Ana Cristina Cesar (que estreou em livro em 1979), tiveram sua obra selecionada. Outras mulheres presentes na antologia são a prolífica Olga Savary; Suzana Vargas, visceral cultora da memória; Elizabeth Hazin, que com seu estro explora e articula afetos; Elisabeth Veiga, autora de dicção franca intimista; e Angela Melim, com sua poesia despojada de artificialismos.
Ao lado de representantes de tendências mais experimentais, como Ronaldo Werneck e Moacy Cirne, encontramos aqueles afeitos a um coloquialismo que tangencia o humor: Chacal, Paulo Leminski, Claufe Rodrigues; e autores ligados ao grupo Nuvem Cigana: Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Charles. À verborragia de Waly Salomão contrapõe-se a dicção sintética e precisa de Tanussi Cardoso; a virulência de Adão Ventura contrasta com o tom reflexivo de Duda Machado; a poesia cool de Antonio Barreto aparta-se dos versos fortes, quase agressivos, de Alex Polari. Estão ainda no livro João Carlos Teixeira Gomes, poeta de grande senso formal; Eudoro Augusto, autor de versos incisivos, por vezes contundentes; e Régis Bonvicino, com sua poesia de visualidades líricas — que pode ser lida em cotejo com a de Júlio Castañon Rodrigues, embora seja preciso ressaltar suas particularidades: o que no primeiro é construção e consistência, no último é dissolução impressionística.
Finalmente, mencionem-se a presença de Reynaldo Valinho Alvarez, autor dos mais premiados; Geraldo Carneiro, refinado analista do cotidiano; Carlos Lima, poeta de êxtases; Marcio Tavares d’Amaral, com sua poesia contemplativa e temperada; e Alcides Buss, que com especial enlevo faz do tempo sua matéria lírica. Last but not least, com justiça inclui-se na antologia o antologiador, Afonso Henriques Neto, autor de uma obra densa e plural acerca da experiência contemporânea.
Crítica sobre o livro Roteiro da Poesia Brasileira, anos 70, organizado por Afonso Henriques Neto,
por HENRIQUE MARQUES-SAMYN, in REVISTA SPECULUM

Henrique Marques-Samyn nasceu e cresceu nos subúrbios cariocas. É escritor, tradutor e pesquisador acadêmico, autor de Poemário do desterro, Esparsa erótica e de diversos artigos acadêmicos. Articulista do Jornal do Brasil e da revista Speculum, tem textos publicados no México, na Venezuela e na Espanha. É doutor em Literatura Comparada (UERJ), mestre em Psicologia Social e em Filosofia.

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2 comentários:

Anônimo

Olá, adorei receber seu e-mail e vir aqui ver a crítica.
Cada dia meu amigo tá mais importante!!!
Vê se aparece, e venha visitar os pobres mortais aqui na serra!!
Bjs. sua amiga Rosana

TANUSSI CARDOSO

Oi, minha amiga, qualquer dia apareço pra dar um beijão em vocês. Saudades.
Beijão meu

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