Mensagem - Lançamento Novo Livro

Meus amigos,


depois de algum tempo, volto a publicar um livro de poemas: "DOS SIGNIFICADOS". 

Ele está inserido dentro de um projeto meu, da Elaine Pauvolid, do Marcio Catunda e do Ricardo Alfaya, intitulado "QUADRIGRAFIAS", numa edição belíssima da Uapê. Cada um de nós tem seu livro individual publicado nele; ou seja, são 4 livros em um, o que já garante uma boa leitura.

Como vocês, de alguma forma, fazem parte da minha história dentro da poesia, ficarei  muito feliz se puder abraçá-los no dia do coquetel de lançamento, 22/01/2015.

Obrigado pelo carinho e apoio de sempre.

Lançamento Novo Livro - 22/01/2015


Sobre o Sangue


Leia na íntegra esse emocionante conto, vencedor de dois prêmios:

Vencedor do XV Concurso Nacional de Contos, Prêmio Jorge de Andrade, da Academia Barretense de Cultura, Barretos/SP, 2012

Vencedor do 46º Concurso Literário Nacional de Contos, FEMUP, Paranavaí/PR, 2014





Sobre o Sangue

Eu tinha oito anos. Chovia.

A imagem da mãe envelhecendo, olhos no chão, envergonhados, vergado o corpo no tempo, cresceu comigo, enraizara-se na pele.

Aquele homem – o pai – na rua enorme e, nós, cinco irmãos e a mãe, abraçados em frente à casa.

Não voltou mais.

Desde então, a vida passou a ser a imagem da chuva nos cabelos da mãe.

A mãe nunca permitiu nem porquês nem senões. Qualquer dúvida, cortava no ar a resposta. Bastava o silêncio de um gesto, o olhar perdido na janela, e entendíamos o clamor dos nãos, que a boca não ousava pronunciar.

A mãe forte, na vida em que durou. Morreu aos sessenta. Nunca mais outro homem, nunca outra língua, nunca outro sexo, nunca mais amor. Nunca mais mulher. 

Agarrava-se aos filhos, às vezes sorriso nos cantos dos lábios; gargalhadas não mais permitidas. Uma vizinha ali, uma tia acolá, cada vez mais escassas as visitas.

Mas foram os dias nas janelas que ficaram em minha memória. Ela, o rádio na Ave-Maria das seis da tarde, a calmaria barulhenta e íntima que não passava, a vista esquecida nos postes, nas moscas que brincavam na luz. Perdia-se em si mesma, calada, atenta aos passos do vento, rezando por algo que nem ela mesma entendia. Dizia nada. Como se aguardasse o tigre, o cão, o anjo e seu bote. Toda casa olhava o mundo através daquelas retinas úmidas.
Morreu aos sessenta, fisicamente. Na janela. Depois de tanta roupa lavada a pagar por nossas vidas. Antes, enterrara dois filhos. Restaram-me dois irmãos menores.

Aquele homem – o pai – não sumira de mim no tempo. Estava comigo, dormia comigo. Era sombra que teimava pra me sentir vivo. Como se pele, mãos, corpo. Encobria-me nos lençóis, mastigava minha comida, bebia meu vinho envenenado. Aquele homem – o pai – não sumira de mim no tempo. Mas não era um fantasma. Era quase minha alma, quando entrava nos sonhos sem rosto, olhos na nuca, meu destino, minha razão. Meu ódio. Lembrá-lo passou a ser uma maneira de me vingar do tédio e do tempo. Uma maneira de regurgitar prazer e nojo.

Cresci com ele. A imagem retorcida nos passos sem volta pela rua. Cresci num adeus. Talvez por isso não consiga ficar, fincar raízes, construir família, amigos, casa. Tenho pés no vento, no ar que me leva sempre para algo não pronunciado, para uma palavra nunca dita. Sou uma fuga.

Os dois irmãos se casaram, família, filhos. Só eu só. Refém.

Poucas notícias, depois daquele vulto sumindo na rua. Soube que construíra nova família, outros filhos, numa cidade vizinha.

Como perdoá-lo, depois da chuva nos cabelos da mãe? Como esquecê-lo, perdido?

Agora, essa vontade de vingança que não sei bem onde explodira. Essa faca na mão – como explicá-la? Por que, depois de tanto tempo, a vontade de encontrá-lo? A vontade do confronto, do duelo? O desejo de abrir esse vulcão? Essa querença de vida e de morte?

Nada me respondia. Nem o espanto. Nem a cegueira. Nem Deus nem o diabo. Era ele e eu – e um adeus no meio.

Cheguei cedo à cidadezinha. Uma rua principal asfaltada, outras ruelas que se esgarçavam, em barro e lama.
Pedi água num boteco. As mãos no bolso do paletó tremiam. O objeto cortante furava o pano e quase rasgava minha pele. Como voltar? Por que continuar? Por que razões a vida me escolhia para esse jogo de dados?

Pensei que os poucos olhares da cidade imaginassem sobre minha chegada. Saberiam de tudo. Senti calafrios. Mas a voz da mãe na janela da casa, com os cabelos e o rosto molhados de chuva, perguntou:
- O senhor conhece por aqui o Seu Malaquias?

A pergunta me soava como gelo no sol. Me sentia derreter, pequeno, arrependido, querendo voltar. Mas a vida não é uma luta de boxe. No boxe, pode soar o gongo antes da derrota. A vida é abismo sobre abismo.

- Seu Malaquias? O enfermeiro?  E quem não conhece aquele santo homem por aqui, meu Deus! Aqui na cidade é ele na terra e Cristo no céu! Aquele dali só sabe fazer o bem. Sai por aí, de casa em casa, a cuidar dos velhinhos e das crianças, cuida da saúde delas, dá remédio, até abriu uma creche para ensinar o povo a ler e a escrever... Seu Malaquias é mesmo um santo, seu moço!... Mas quem é que pergunta?!

O suor de um vento frio me passou no rosto, as pernas tremeram. Pensei que fosse desmaiar. E agora?! Que merda eu tô fazendo aqui?!

- Eu sou filho dele, disse, sem muita certeza.
- Filho?! O senhor disse filho?! O moço é filho do Seu Malaquias? Meu Deus do Céu, que coisa boa! Me dê um abraço, moço! Filho dele é como se fosse meu filho também...

Abraçou-me, realmente, emocionado.

- Venha, vou lhe mostrar onde fica a casa dele.

A casa amarela era simples, bem cuidada, com jardim e portão de madeira. Fiquei bom tempo parado, na calçada em frente. A faca no bolso, olhar vidrado à espreita. Um adeus no peito. Uma dor que vinha de imemoriais poeiras.
Um velho surgiu na varanda, caminhando lento, arrastando chinelos. Era como se eu quisesse fugir da realidade, e ela me chegasse em sombras e espelhos. E nunca o sonho se fizesse tão real!

Abriu o portão e dirigiu-se à rua. Calça listrada feito pijama. Camisa branca de botões. Pele morena. Caminhava devagar sob o peso dos ombros.  O pai!

Aos poucos, segui-o. Corpo em febre, olhos em fogo. Coração estilhaçado. O sangue nos dedos.

Bati em seu ombro.

Todos os deuses dos anos perdidos, todos os santos dos tempos passados, todas as músicas não mais ouvidas, todos os latidos dos cães, todos os ventos bravios, todos os amores esquecidos, todas as vergonhas das virgens, todas as ruínas, todos os risos dos demônios, enfim, todas as dores ali se aplacaram.

O corpo voltou-se vagarosamente.

Fixou seus olhos nos meus. Não precisou um gesto a mais.

- Adalberto, meu filho!

Uma lágrima de mais de trinta anos rolou em meu rosto.


TANUSSI CARDOSO

Buscar

Carregando...
 
TANUSSI CARDOSO POETA ETC Copyright © 2011 | Tema diseñado por: compartidisimo | Con la tecnología de: Blogger